Anna formou-se enfermeira. Um dia, uma mulher alemã veio conversar com ela.
– Ela sabia que eu era massai e quis saber mais sobre crianças com deficiência em nossas aldeias. Expliquei que, no passado, era comum essas crianças serem mortas ou abandonadas imediatamente após o nascimento. Acreditava-se que crianças com deficiência eram um castigo por algo que haviam feito. Mas contei que o principal motivo era que nós, massai, somos criadores de gado, que, para sobreviver, percorremos longas distâncias a pé pela savana, em busca de pastagem fresca para os animais. Uma criança incapaz de se mover é considerada um grande obstáculo para todo o grupo. Expliquei que essas crianças continuavam tendo seus direitos violados. Que elas eram escondidas, não recebiam os cuidados médicos de que precisavam e não tinham permissão para ir à escola ou brincar.
A alemã perguntou se Anna desejava participar do lançamento de um projeto para crianças com deficiência nas aldeias massai, que seria chamado Huduma ya Walemavu (Assistência para Pessoas com Deficiência).
– Aceitei imediatamente. Era algo que eu sempre havia desejado! Agora, eu esperava poder fazer mais por crianças com deficiência do que conseguira fazer por Nauri quando pequena.
Em 1990, Anna começou a dirigir pelas aldeias e falar
sobre os direitos das crianças com deficiência. Ao mesmo tempo, procurava por crianças que precisavam de ajuda. Uma das primeiras crianças que ela conheceu foi Paulina, 15, órfã, que, devido a seque- las da poliomielite, tinha que rastejar no chão. Anna achou que seria fácil convencer os líderes da aldeia de que Paulina poderia ter uma vida boa se fizesse a cirurgia certa. Mas Anna estava errada.
– Eles não sabiam que crianças com deficiência podiam ser operadas e melhorar, e não acreditaram em mim. Como moravam longe dos hospitais, não sabiam ler e nem podiam comprar rádios, eles nunca haviam sido informados. Acharam que seria desperdício de dinheiro, pois essas crianças nunca poderiam ajudar com o gado ou ir à escola, de qualquer forma.
– Mas meu maior problema era ser mulher. Em nossa sociedade, as mulheres simplesmente não têm voz; por isso, não me levavam a sério.
Anna não desistiu. Assim como desafiara a mãe de Nauri aos seis anos de idade, agora ela desafiava os líderes da aldeia. A viagem para a aldeia levava quatro horas, mas Anna foi lá cinco vezes num período de duas semanas! Em cada reunião, ela explicava os direitos da criança e que haviam conseguido obter uma cirurgia gratuita para Paulina. No fim das contas, ela conseguiu convencer os homens.