Anna Mollel
A história de Anna

Quando tinha seis anos, Anna Mollel experimentou pela primeira vez as dificuldades de crianças com deficiências nas aldeias massai do norte da Tanzânia. Muitos anos depois, Anna chegou ao que pensava ser uma aldeia completamente vazia. Porém, no chão de uma casa, encontrou uma menina de oito anos abandonada, Naimyakwa, que não conseguia se mover e teria morrido se Anna não tivesse ido até lá e a salvado.

Anna, que pertence ao grupo étnico massai, tinha seis anos e brincava com amigos na aldeia vizinha quando ouviu um som vindo de dentro de uma das casas.
   – Perguntei à minha amiga o que era. Ela respondeu que era sua irmã, que não tinha permissão para sair. A mãe delas não queria mostrar que tinha uma filha que não era “como deveria ser”.
   – Entrei na casa e havia uma garotinha deitada. Ela sorriu quando me viu, lembra Anna.

Anna conhece Nauri

Anna ajudou a menina a se sentar e elas começaram a brincar. A menina Nauri ficou feliz por finalmente ter companhia. No dia seguinte, Anna voltou quando a mãe de Nauri estava fora buscando água.
   – Esquecemos da hora. De repente, a mãe de Nauri entrou correndo e me bateu com um galho. Ela gritou que eu nunca mais pisasse em sua casa.
   Mas Anna voltou no dia seguinte.
   – As outras crianças estavam assustadas, mas eu disse que todo mundo precisa de amigos, e que era óbvio que devíamos ir lá e brincar com Nauri também.
   Anna conseguiu convencer os outros. Eles se revezavam vigiando enquanto os outros brincavam, e quando o vigia gritava que a mãe estava a caminho, todos saíam correndo dali. Depois de alguns dias, Anna ajudou Nauri a se levantar e elas treinaram andar. Logo, Nauri conseguia participar e brincar. Após algumas semanas, a mãe de Nauri foi à casa de Anna.
   – Ela disse que sabia o que eu estava fazendo e queria que continuasse! Nauri nunca se sentira tão bem e foi um milagre que conseguiu andar e correr.
    Anna perguntou se Nauri podia começar a frequentar escola, mas sua mãe não concordou. – Portanto, eu ia à casa de Nauri todos os dias depois da escola e ensinava-lhe o que havia aprendido durante o dia. Tornei-me a única professora que ela já teve.

Anna and Lomniaki
De volta à aldeia – Nosso objetivo é sempre que as crianças retornem à sua aldeia e vivam a mesma vida que o resto da família. Que as crianças possam ir à escola com as outras crianças e fazer parte da sociedade, diz Anna.


Começa a lutar pelas crianças

Anna formou-se enfermeira. Um dia, uma mulher alemã veio conversar com ela.
   – Ela sabia que eu era massai e quis saber mais sobre crianças com deficiência em nossas aldeias. Expliquei que, no passado, era comum essas crianças serem mortas ou abandonadas imediatamente após o nascimento. Acreditava-se que crianças com deficiência eram um castigo por algo que haviam feito. Mas contei que o principal motivo era que nós, massai, somos criadores de gado, que, para sobreviver, percorremos longas distâncias a pé pela savana, em busca de pastagem fresca para os animais. Uma criança incapaz de se mover é considerada um grande obstáculo para todo o grupo. Expliquei que essas crianças continuavam tendo seus direitos violados. Que elas eram escondidas, não recebiam os cuidados médicos de que precisavam e não tinham permissão para ir à escola ou brincar.
   A alemã perguntou se Anna desejava participar do lançamento de um projeto para crianças com deficiência nas aldeias massai, que seria chamado Huduma ya Walemavu (Assistência para Pessoas com Deficiência).
   – Aceitei imediatamente. Era algo que eu sempre havia desejado! Agora, eu esperava poder fazer mais por crianças com deficiência do que conseguira fazer por Nauri quando pequena.

Não desistiu

Em 1990, Anna começou a dirigir pelas aldeias e falar sobre os direitos das crianças com deficiência. Ao mesmo tempo, procurava por crianças que precisavam de ajuda. Uma das primeiras crianças que ela conheceu foi Paulina, 15, órfã, que, devido a seque- las da poliomielite, tinha que rastejar no chão. Anna achou que seria fácil convencer os líderes da aldeia de que Paulina poderia ter uma vida boa se fizesse a cirurgia certa. Mas Anna estava errada.
   – Eles não sabiam que crianças com deficiência podiam ser operadas e melhorar, e não acreditaram em mim. Como moravam longe dos hospitais, não sabiam ler e nem podiam comprar rádios, eles nunca haviam sido informados. Acharam que seria desperdício de dinheiro, pois essas crianças nunca poderiam ajudar com o gado ou ir à escola, de qualquer forma.
   – Mas meu maior problema era ser mulher. Em nossa sociedade, as mulheres simplesmente não têm voz; por isso, não me levavam a sério.
   Anna não desistiu. Assim como desafiara a mãe de Nauri aos seis anos de idade, agora ela desafiava os líderes da aldeia. A viagem para a aldeia levava quatro horas, mas Anna foi lá cinco vezes num período de duas semanas! Em cada reunião, ela explicava os direitos da criança e que haviam conseguido obter uma cirurgia gratuita para Paulina. No fim das contas, ela conseguiu convencer os homens.

boys in yellow shirts at big playground
Brincar é importante! – Ficar sozinha e ser excluída é a pior coisa que uma criança pode experimentar. É por isso que as brincadeiras e a proximidade são tão importantes para nós no Centro, explica Anna.

Lágrimas de alegria

Após a cirurgia, Paulina começou a se sentar e ficar de pé. Depois de algumas semanas, começou a treinar andar com muletas.
   – Ela ficou muito feliz, e eu também! Quando Paulina voltou para casa, três meses depois, e conseguiu entrar na aldeia caminhando, as pessoas começaram a chorar de alegria! Embora Anna estivesse feliz por Paulina conseguir andar, ela sabia que Paulina precisava receber uma educação para conseguir se sustentar no futuro.
   – Paulina queria ser costureira, então a ajudamos a começar esse tipo de educação. Ela se saiu muito bem!
   O rumor sobre Paulina se espalhou pelas aldeias. As pessoas começaram a ter coragem de falar sobre seus filhos com deficiência, e queriam ajuda. Anna viajava para alcançar crianças que precisavam de ajuda em aldeias remotas. A cada viagem, ela acolhia mais e mais crianças.
   – Em 1998, nosso próprio centro em Monduli ficou pronto. Fisioterapeutas e enfermeiros foram contratados, assim como professores, porque eu sabia que as crianças que ajudávamos quase nunca frequentavam a escola. Havia espaço para trinta crianças, mas, às vezes, 200 crianças se hospedavam ao mesmo tempo.
   – Embora não tivéssemos espaço, acolhíamos todas as crianças. As famílias eram tão pobres que não podiam pagar para que as crianças ficassem conosco, mas nunca mandamos ninguém embora.
   Faz quase 30 anos que Anna ajudou Paulina e, desde então, cerca de 15.000 crianças obtiveram uma vida melhor graças a Anna à Hudumaya Walemavu.

Lonely tree and lots of goats, boy in red

Massai vulneráveis

O grupo étnico massai é composto por criadores de gado. Existem cerca de um milhão massai, metade na Tanzânia e metade no Quênia. Desde o início do século XX, a terra usada pelos massai como pasto para o gado diminuiu. As autoridades concederam grande parte das terras dos massai a indivíduos e empresas privadas para cultivo, criação de áreas de caça particulares e parques nacionais para a vida selvagem.
   Em 2009, a polícia de choque incendiou oito aldeias massai no norte da Tanzânia para que a terra fosse usada por uma empresa de caça privada a fim de que turistas praticassem caça esportiva lá. As pessoas foram expulsas de suas casas, e mais de 3.000 homens, mulheres e crianças ficaram desabrigados. Os massai que deixaram seu gado pastar na área produtiva foram presos.

Não apenas massai

– No início, trabalhávamos apenas com crianças massai, mas agora cuidamos de todas as crianças que precisam de nossa ajuda, independentemente do grupo étnico ou religião a que pertençam. Aqui há muçulmanos e cristãos, e até crianças que fugiram da guerra em países vizinhos. A luta pelos direitos da criança não tem limites! afirma Anna.

WORLD'S CHILDRENS PRIZE FOUNDATION

Långgatan 13, 647 30, Mariefred, Sweden
Phone: +46-159-129 00 • info@worldschildrensprize.org

© 2020 World’s Children’s Prize Foundation. All rights reserved. WORLD'S CHILDREN'S PRIZE®, the Foundation's logo, WORLD'S CHILDREN'S PRIZE FOR THE RIGHTS OF THE CHILD®, WORLD'S CHILDREN'S PARLIAMENT®, WORLD'S CHILDREN'S OMBUDSMAN®, WORLD'S CHILDREN'S PRESS CONFERENCE® and YOU ME EQUAL RIGHTS are service marks of the Foundation.

 
x
x
x
3628718394